sexta-feira, março 31, 2006


Porquê preferir os Gatos aos Homens...

Os Gatos não se sentem ameaçados se ganhares mais do que ele.
Os Gatos não têm problemas em demonstrar afecto em público.
Os Gatos não gostam de cerveja.
Os Gatos não criticam os teus amigos.
Os Gatos não se sentem ameaçados pela tua inteligência.
Os Gatos não praticam a morte da sua própria espécie.
Os Gatos não se preocupam se fores tu a guiar.
Os Gatos não necessitam de desculpas.
Os Gatos não se gabam sobre com quem já dormiram.
Os Gatos não lêem o jornal à mesa.
Os Gatos não corrigem o que dizes.
Os Gatos não precisam de terapia para desfazer a má sociabilização.
Os Gatos sentem de verdade quando te "beijam".
Os Gatos sentem a tua falta quando te vais embora.



quinta-feira, março 30, 2006


" (...) Sozinho, fora do pueblo, na planície nua da mesa. O rochedo assemelhava-se a ossos esbranquiçados pelo luar. Em baixo, no vale, os chacais uivavam à Lua. Ainda lhe doíam as contusões e os golpes ainda sangravam. Mas não era a dor que o fazia soluçar; chorava por estar sozinho, por ter sido escorraçado, sozinho, para o mundo sepulcral dos rochedos e do luar. Sentou-se à beira do precipício. A Lua estava atrás dele; mergulhou os olhos na sombra negra da mesa, na sombra negra da morte. Tinha só que dar um passo, um pequeno salto...Estendeu a mão direita ao luar. Do golpe do pulso ainda corria sangue. Com intervalos de alguns segundos, caía uma gota, sombria, quase incolor na luz morta. Uma gota, uma gota, uma gota... «Amanhã, e amanhã, e ainda amanhã...»
Tinha descoberto o Tempo, a Morte e Deus."

Aldous Huxley in Admirável Mundo Novo

quarta-feira, março 29, 2006




Arabela
abria a janela.

Carolina
erguia a cortina.

E Maria
olhava e sorria:
"Bom Dia!"

Arabela
foi sempre a mais bela.
Carolina,
a mais sábia menina.
E Maria
apenas sorria:
"Bom Dia!"

Pensaremos em cada menina
que vivia naquela janela;
uma que se chamava Arabela,
outra que se chamou Carolina.

Mas a nossa profunda saudade
é Maria, Maria, Maria,
que dizia com voz de amizade:
"Bom Dia!"

Cecília Meireles

terça-feira, março 28, 2006


Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Não conhece nem dó nem ré,
mas sabe ficar na ponta do pé.

Não conhece nem lá nem si,
mas fecha os olhos e sorri.

Roda, roda, roda com os bracinhos no ar
e não fica tonta nem sai do lugar.

Põe no cabelo uma estrela e um véu
e diz que caiu do céu.

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.

Mas depois esquece todas as danças
e também quer dormir como as outras crianças.

Cecília Meireles

Brincar, Brincar, Brincar...

Um Menino:
Brincar, brincar, brincar, brincar,
Se isto não é ter que fazer
O que é ter que fazer?

Outro Menino:
Ter que correr, que pular,
Jogar às escondidas, à bola,
ir à escola, vir da escola,
colar, pintar, desenhar,
ler livros, ver televisão...

Outro:
Os brinquedos são tantos e tão
difíceis de contentar!

Outro Ainda:
A brincadeira mais tonta,
o jogo menos complicado,
requerem tanto cuidado,
dão tanto que fazer de conta!

O Segundo Menino outra vez:
O cão a sério roeu
o cãozinho de brincar,
a boneca que fala deixou de falar,
o sempre-em-pé está caído no chão,
o carro de corda não anda nem de empurrão,
o Cavaleiro Andante pôs-se a andar,
os 7 Anões só já são 1 Anão,
desapareceu a ponteira do pião,
a bola apareceu furada,
o Faz-Tudo já não faz nada,
o pato de plástico já não tem patas
(o cão a sério, a brincar, arrancou-lhas),
metade dos livros só tem metade das folhas
e a outra metade só tem capas....

Todos:
A brincadeira mais tonta,
o jogo menos complicado,
requerem tanto cuidado,
dão tanto que fazer de conta!

Manuel António Pina

Dia Mundial do Teatro



segunda-feira, março 27, 2006


Procura-se um Amigo...

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, do passáro, do sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor... Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredos sem se sacrificar.

Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescendível que seja de segunda. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira da estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Moraes


Alguém quer se meu AMIGO?



Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a magóa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face numa outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu foi eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei a minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque os meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Vinicius de Moares




sábado, março 25, 2006


Uma voz no Vento
Chama o azul do dia
Doce perfume, canção
Uma voz no Tempo
Resiste na noite
E as lágrimas fogem de ti

Uma voz no Vento
Uma voz me chama
Brisa de Amor
Doce coração
Uma voz no Tempo
Carinho na alma
E as lágrimas fogem de ti

Se quem chegou partiu
Se quem virá já foi
Só para quem fica
Os dias são todos iguais
Mil sonhos para enterrar
Ventos e vendavais
Corpo e alma vergam
Se os anos pesam demais
No Coração

Uma voz no Vento
chama o azul do dia
Doce perfume, canção
Uma voz no tempo
Resiste na noite
E as lágrimas fogem de ti
E as lágrimas fogem de mim
E um rio se forma de nós.

Marcus Viana


sexta-feira, março 24, 2006


Fogo, luz dos canhões, dos trovões,
Luz do sangue, do rubro céu

Fogo, luz das paixãos, dos rios de vulcões
Que desaguam no coração

Sigo os passos do herói sobre a terra
Sigo os passos do homem bom
O teu rastro é bandeira de guerra
Minha casa, minha lei, minha fé

Teu amor me arrasta perdida
Nave solta no imenso mar
Peleando batalhas e vidas
Nascidas para te encontrar

Fogo, luz que incendeia os corações
De guerreiros e amantes vem

Fogo, luz das estrelas distantes
Dessa terra de homens vem.

Marcus Viana

quinta-feira, março 23, 2006


As lentas nuvens fazem sono,
O céu azul faz bom dormir.
Bóio, num íntimo abandono,
À tona de não me sentir.

E é suave, como um correr de água,
O sentir que não sou alguém,
Não sou capaz de peso ou mágoa.
Minha alma é aquilo que não tem.

Que bom, à margem do ribeiro

Saber que é ele que vai indo...
E só em sono eu vou primeiro.
E só em sonho eu vou seguindo.


quarta-feira, março 22, 2006


João Ar-Puro

João Ar-Puro era o melhor amigo das águas, dos pássaros, dos peixes e das árvores de fruto. Era amigo dos camponeses e dos animais domésticos. Todos gostavam dele por ser alegre, trabalhador e saudável.
Tinha ombros largos, bochechas rosadas e mãos grandes, generosas, sempre prontas a ajudar quem estivesse triste, desamparado ou aflito.
João Ar-Puro era filho da Brisa do Mar e do Vento do Norte.
Com eles aprendera a respirar fundo o ar fresco que vem dos campos, cheirando a hortelã e a rosmaninho, a encher o peito com a aragem fria do mar, que sabe a sal, a maresia e a sonhos de viagens. (...)
João Ar-Puro nascera no País da Primavera, na Aldeia das Águas Azuis. Às cavalitas do pai ou ao colo da mãe conheceu terras distantes, outros povos e continentes, aprendeu os nomes das flores, das montanhas, dos rios e das cidades. Em todos os lugares por onde passou deixou amigos, como se semeasse plantas que duram a vida inteira.
João Ar-Puro sabia que a Natureza andava preocupada, inquieta, que acordava por vezes sobressaltada a meio da noite.
- "Não gosto de te ver assim. Gostava de saber o que te preocupa" - disse ele à Natureza, que era uma mulher sem idade, com grandes olhos verdes da cor do mar de Setembro e longos cabelos de prata fina.
- "Ando preocupada porque todos os dias me chegam notícias de que os meus filhos sofrem."
- "Os teus filhos?" - apressou-se joão a perguntar.
- "Sim, os meus filhos - insistiu ela - , os peixes, as águas, as árvores, os pássaros. Sei que sofrem com os fumos das fábricas nas grandes cidades, com o óleo que deitam nas águas azuis do mar, com os ruídos das buzinas e das sirenes, com o lixo que lançam nas praias e na relva fresca dos jardins públicos, com as coisas estragadas que lhes dão para comer, para beber e para cheirar." Parou um instante para suspirar e continuou:
- "Com todo o mal que lhes fazem, eles adoecem e às vezes morrem. Mesmo que nada disso lhes aconteça, andam tristes por verem os seus irmãos a sofrer e eu, claro, sofro com eles, sinto o que eles sentem e gostava de os ajudar, mas acho que nada posso fazer."

José Jorge Letria, in João Ar-Puro no País do Fumo

Libertem as vossas consciências, por momentos deixem de ser egoístas... AJUDEM a NATUREZA a SORRIR!

Dia Mundial da Água



terça-feira, março 21, 2006



As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas maõs nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

Porque hoje é também o Dia Mundial da Poesia...


A Árvore

Era uma vez - em tempos muito antigos, no arquipélago do Japão - uma árvore enorme que crescia numa ilha pequenina.
Os japoneses têm um grande amor e um grande respeito pela Natureza e tratam todas as árvores, flores, arbustos e musgos com o maior cuidado e com um constante carinho.
Assim o povo dessa ilha sentia-se tão feliz e orgulhoso por possuir uma árvore tão grande e tão bela. Em nenhuma outra ilha do Japão, nem nas maiores, existia outra árvore tão grande. Até os viajantes que por ali passavam diziam que mesmo na Coreia e na China nunca tinham visto uma árvore tão alta, com a copa tão frondosa e bem formada.
E, nas tardes de Verão, as pessoas vinham sentar-se debaixo da larga sombra e admiravam a grossura rugosa e bela do tronco, maravilhavam-se com a leve frescura da sombra, o suspirar da brisa entre as folhagens perfumadas.
Assim foi durante várias gerações.
Mas com o passar do tempo surgiu um problema terrível e por mais que todos meditassem e discutissem ninguém era capaz de arranjar uma boa solução.
Porque, ao longo dos anos, a árvore tinha crescido tanto, os seus ramos tinham-se tornado tão compridos, a sua folhagem tão espessa e a sua copa tão larga que, duarante o dia, metade da ilha ficava sempre à sombra.
De maneira que metade das casas, das ruas, das hortas e dos jardins nunca apanhava sol.
E, na metade ensombrada, as casas estavam a ficar húmidas, as ruas tinham-se tornado tristes, as hortas já não davam legumes, os jardins já não davam flor. E a gente que ali morava andava sempre pálida e constipada.
E, à medida que a sombra da árvore crescia, crescia também a perturbação.
As pessoas gemiam:
- Que havemos de fazer? Que havemos de fazer?

Sophia de Mello Breyner Anderson, in A Árvore

Porque hoje é o Dia da Árvore...


Porque hoje começa a Primavera...

segunda-feira, março 20, 2006


De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se do triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Vinicius de Moraes

O que passou e o que virá
Se irmanam em cruz no coração
Pois quem ardeu ao sol de uma paixão
Sabe renascer das cinzas da solidão

Deixa eu te tomar entre os braços
E ir ao jardins do céu, que o arcanjo zelou
Quero ouvir romanças dos lábios teus
Como flores que o tempo não levará, porque não são daqui.

Marcus Viana






domingo, março 19, 2006


Papoilas em julho

Pequenas papoilas, pequenas chamas infernais,
sois inofensivas?

Estremeceis. Não posso tocar-vos.
Ponho as minhas mãos por entre as chamas. Mas nada
queima.

E fico exausta quando vos vejo
estremecer assim, pregueadas e rubras como a pele da
boca.

Uma boca há pouco ensanguentada.
Pequenas orlas de sangue!

Há nela um fumo que não consigo tocar.
Onde está o vosso ópio, as vossas cápsulas nauseabundas?

Se eu pudesse esvaiar-me em sangue ou dormir!...
Se a minha boca conseguisse desposar uma tal ferida!

Ou os vossos licores me penetrassem, nesta cápsula de
vidro,
trazendo-me a acalmia e o silêncio.

Mas sem cor. Sem nenhuma cor.

Sylvia Plath


sábado, março 18, 2006

O que resta de nós...

Uma folha em branco com um futuro por escrever e com um passado para recordar...
Um seco suspiro por cada momento em que sinto hoje que apenas queria voltar atrás,
ser aquilo que não fui, dar-te tudo aquilo que não dei.
Viver o que não vivi!
Queria que sentisses as cores com que pintei o nosso mundo, as formas com que moldei cada dia...
A cada segundo que passa solta-se um pedaço do que sinto,
uma estranha forma de vida, deixar morrer aquilo por que vivo.
Só uma lágrima faz sentir o insensível, um só sorriso faz sentir o desejo!
Voltar a voar no teu olhar, sentir-me livre para correr, sorrir e amar...
Reviver contigo cada pedaço de uma história, recriar momentos que apesar de efémeros se tornam memoráveis...
Sentir as forças que nos unem , beijar os sorrisos que me fazem sentir o que sou,
Uma sublime forma de estar, um simples desejo de te amar.

Victor Leal



sexta-feira, março 17, 2006


Não preciso de me drogar para ser um génio;
não preciso ser um génio para ser humano,
mas preciso do teu sorriso para ser feliz.

Cântico do Amor

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver Amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine.
Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver Amor, nada sou.
Ainda que eu distribua todos os meus bens e entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver Amor, de nada me aproveita.
O AMOR é paciente, o Amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento. Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O AMOR jamais passará.

Primeira Carta aos Coríntios 13,1-8)